segunda-feira, 11 de junho de 2012

O CAUSO DO TUFÃO

Papai era um contador de causos. Este eu ouvi dele há muito tempo e fico imaginando quem estaria mentindo, ele ou o contador da história. E como diz a Silvinha Sá - tem causos que só poderiam acontecer mesmo com gente de Guaxupé. 
Duca era exímio caçador, no tempo que caçar era permitido e fazia a alegria de amigos do papai que quase nunca tinham o que fazer nos finais de semana da pacata cidadezinha do interior. Assim, chegava o sábado e lá iam em busca de pacas, tatus e outros bichos. 
Duca tinha um cachorro perdigueiro , chamado Tufão (não é o da novela, tá?). Cão farejador de primeira, sentia o cheiro da caça mal saiam da cidade e ia levantando o focinho para indicar para que lado deveriam ir.
Papai tinha uma jipe Willis e Tufão ia no banco do carona, com a cabeça para fora, focinho para o alto e o Duca falando: vira pra direita, Tonico... agora, pra esquerda... vai em frente e assim por diante até o Tufão colocar a cabeça para dentro do jipe.
- Pode parar, Tonico. É aqui... A caça está aqui! 
Segundo papai, eles nunca voltavam de mão abanando.
E não é que numa das caçadas, apareceu uma onça pintada, daquelas grandonas e o Tufão ficou distraindo a onça até que todos entrassem no jipe. Quando viu que todos estavam a salvo, Tufão ainda quis fazer um desaforo para a onça, mas ela foi mais esperta e matou o coitadinho. O chororô foi ali mesmo e Duca, no auge do desespero, proclamou: - Do Tufão eu não separo! E foi logo pegando uma faca muito afiada e tirou o couro do bichinho. Pegou uns pedaços de bambu e ali mesmo esticou a pele do cachorro prometendo deixar curtir para nunca mais se esquecer do melhor cão perdigueiro de Guaxupé, quiçá de Minas ou quem sabe, do Brasil! 
Duca desanimou das caçadas. Não adiantava chamá-lo. Ele sempre respondia: - Num vô não, Tonico. Eu num guento! Fazer o quê sem o meu Tufão???
Até que um dia, papai foi surpreendido com a visita de Duca: - Tô pronto, Tonico. Agora, já posso ir caçar de novo. E vou bem acompanhado, mostrando um embornal feito com o couro de Tufão. Sem isto, Tonico, não tinha jeito de eu ir caçar de jeito nenhum. Caçar... só na companhia de Tufão.
E lá se foram... Duca não quis ocupar o lugar do carona, talvez ainda incomodado pela falta do Tufão. Sentou-se atrás e durante todo o trajeto, papai e o outro amigo, só ouviam os resmungos incompreensíveis de Duca.
- Que que foi, Duca? Falando sozinho?
- Num é nada não. Cês vão falar que eu tô doido. Me deixa quieto... 
Assim foi até que chegaram no local da caçada. E quando se preparavam para adentrar o mato, Duca gritou: - Não é pra esse lado aí não, Tonico. Vortapatrais! Óia aqui, óia! O Tufão tá falando que a caça tá pra esse lado. O emborná tá arrepiano, Tonico! Os pêlo tão ficano em pé pra indicá pra que lado os bicho tão. Eu num falei pro ceis que sem o Tufão num diantava vim. Eta cachorro esperto! É bão até depois de morto!!!

Boa semana, meus queridos!